Aquarius

A Desconstrução pela forma

O Classicismo de Aquarius

Por Julio Cruz

Para começo de conversa, há uma dificuldade em se propor a escrever sobre Aquarius de Kleber Mendonça Filho. O filme se apresenta ao espectador como um monstro político em um tempo tão conturbado quanto os dias de hoje, tomando palco central na disputa de poderes que assola o país, e se tornando, ao mesmo tempo, mártir e avatar do golpe que aconteceu em 2016 e da presidente Dilma e suas tentativas de resistência ao processo de impeachment. Daí o tão catártico final da fita, junto aos protestos do elenco em Cannes se tornarem tão marcantes. Mas, apesar da ingratidão da tarefa, há de se debruçar sobre ele.

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Para além dessas questões, vislumbrando o longa, Aquarius é de um classicismo exorbitante. Cada pedaço do filme é amarrado com nós bem condensados onde cada ato em tela não é deixado em vão, por mais que, para qualquer visionário de primeira viagem, as importâncias e resoluções possam parecer desproporcionais. Personagens que tem um foco central numa parte do filme, aparecem novamente em um leve lampejo numa outra, como é o caso da Tia Lúcia, por exemplo, que desaparece após a viagem temporal do início à Recife de 1980, e sua reaparição em uma foto e algumas linhas de diálogo mais pela metade da narrativa. Mas Kleber, tanto em longa, quanto em curta, nunca foi dado às improvisações, e Tia Lucia tem um motivo de existência.

Kleber também é um cinéfilo de marca maior. Esteve um longo tempo a frente do Cinema da Fundação e teve sua grande carreira de crítico. E tudo isso, se já ficava bastante impresso nas películas anteriores, aqui, puxa um grau a mais, e move a narrativa a frente. Um dos aspectos dessa cinefilia que mais me salta aos olhos é como Kleber desconstrói sua personagem por intermédio do uso de uma técnica, e torna cínica toda a vivência que partilhamos com Clara durante as mais de duas horas de duração. Clara possui emoldurado em seu apartamento, um cartaz enorme de Barry Lyndon, longa de 1975 de Stanley Kubrick. Uma das matérias mais potentes dessa narrativa é o uso do movimento ocular do zoom como ferramenta narrativa. Kubrick realiza lá, algo que Kleber rouba aqui, e, para além de uma referência de cinefilia da personagem, esse cartaz se torna uma chave importante de interpretação. Em Kubrick, o zoom out amplia a categoria pictórica de seus quadros, mas principalmente, difunde seus personagens em seus ambientes, e eleva à 5ª essência o cinismo da fita, conflagrando o espectador com aquilo que os personagens não percebem. É um elemento de distanciamento, que nos permite contemplar, para além dos sense motif das lutas internas de quem está em quadro, quem são de fato e o porque estão onde estão, sofrendo o que sofrem.

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O uso de Zoom para Kleber vem para dar conta de uma das coisas que torna Clara mais verossímil. Há sim, um contexto similar ao de Barry Lyndon aqui, mas seus signos são mais diluídos em meio a narrativa. Barry é um babaca que luta pela sua ascensão na aristocracia do século XVIII. Clara é uma senhora de classe média que resiste à especulação imobiliária no Século XXI. O ponto de contato, é que ambos brigam por uma situação de nobreza, independente dos percalços pelos quais passam. Pode-se dizer que a luta de Clara seja mais nobre que a de Lyndon, mas no fim das contas, é uma luta que reside na ascensão/manutenção de um local no seio da burguesia. Pode-se questionar que Clara já tem esse lugar garantido, já que, como cita, possui mais cinco apartamentos espalhados pelo Recife, além de sua aposentadoria. Mas provar para si que consegue manter seu espaço na praia do Bonfim, com sua empregada doméstica e sua coleção de discos é uma luta até mais burguesa que de Lyndon. Porém, é claro que há diferenças e que as lutas de Clara contra o establishment das construtoras são, de certa forma, lutas louváveis num Brasil em face dos megaeventos e da posição hierárquica que as construtoras ocupam por todo Brasil em contraponto à posição de Clara, mulher jornalista, sobrevivente de um câncer de mama. Porém não há uma nobreza em si que move a sua luta, para além de manter sua nobreza. É uma luta pela manutenção de seu status-quo, já que ela tem chance de escolher viver onde construira sua vida, onde criara seus filhos. Clara pode. Ela é branca, ela é uma senhora de classe média que tem suas publicações, sua posição nas colunas de jornal com suas novas escritas, seus antigos colegas de trabalho… E nesse aspecto, como bem diria Andrea Ormond, Clara não está muito longe do rapaz da construtora. Enquanto ele vê no edifício uma chance de mostrar seu valor (ou o valor de seu MBA em Business feito nos EUA), Clara quer manter seu apartamento na beira da praia, com seus cochilos vespertinos, seus mergulhos exclusivos, e sua coleção de mídia física tão bem arranjada. Ou seja, “Ambos querem a permanência de seus privilégios. Apenas os dela são mais hipsters que os do coxinha com MBA.” E se há uma formulação que escancara isso, é o uso do zoom.

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Kleber é um formalista clássico. O que diferencia seus filmes dos demais longas sobre especulação imobiliária que surgem no contexto do Brasil contemporâneo, Brasil pós-Lula de grandes obras e modernização das áreas nobres de todas as capitais, é justamente sua atenção ao como filmar, e como aliar isso à confecção de um mundo e uma história descolados de acontecimentos documentais e as realidades cruas. Uma das qualidades de Kleber é saber construir tempos. Tempo é uma das armas das quais se vale Aquarius, e como bom cinéfilo que é, ele sabe que cinema é uma arte de tempo. Aqui, assim como seu longa anterior, O Som ao Redor (2012), estamos em uma história retilínea, que segue conforme os acontecimentos vão se desenrolando. Mas, diferente da fita de 2012, Aquarius é um filme de Clara, e estamos presos à ela, e aos seus diferentes tempos. Cada memória se materializa em forma física, seja onírica, como a maravilhosa passagem do sonho com a empregada que roubava e sua presença fantasma em ronda pela casa, seja pelos objetos, espaços e toques que guardam em si uma subjetividade própria à personagem e à nós, enquanto cúmplices de sua vivência.

Clara é o filme, e disso não há espaço para dúvidas. Para além de sua história, a câmera possui um fascínio com sua figura (não à toa que é encarnada por Sônia Braga e todo o cosmo de cinema brasileiro que a rodeia), que é praticamente uma obsessão. São raros os momentos em que não estamos com ela, seja em 1980, protagonizada por Bárbara Colen, seja em 2016. E é interessante pensar em sua construção e trajetória dentro da narrativa, enquanto dona de si, sobrevivente, mãe, viúva, que percorre um mundo que lhe é hostil sem abaixar-lhe a cabeça, e como essa personagem tem encontrado cada vez mais paralelos no cinema. Clara é a Michèle Leblanc de Elle (Paul Verhoeven, 2016) tupiniquim, é a Furiosa de Mad Max: Fury Road (George Miller, 2015) do mundo atual, é a Kate Macer de Sicario (Dennis Villeneuve, 2015) em vestes civis, ou até, a Rey ou Jyn Erso (Star Wars Episódio 8 – O despertar da Força e Rogue One: Uma história de Star Wars, respectivamente) dessa galáxia, isso apenas para citar alguns. Claro, não é o cenário ideal e está longe de ser, já que, em todos esses casos estou citando diretores homens. Mas ao menos, uma parte dos textos de Laura Mulvey, o que divide as personagens femininas em dois estratos possíveis (a dona de casa ou a prostituta) tem sido bem quebrado.

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