Espelho

O cinema enquanto terapia

As faces psicológicas de Espelho de Andrej Tarkovsky

Por Julio Cruz

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“Acho que a motivação principal de uma pessoa que vai ao cinema é uma busca do tempo” (TARKOVSKIY, Andrej, 1998, p. 60). Andrej Tarkovsky se pauta dentro de um estudo realista sobre a memória. Baseando-se na vivencia própria, se fizermos uma rebuscagem de processos memoriais, por exemplo, em hipnose, teremos uma estrutura de memoria imagética com uma torrente descontinuada de imagens, parecida com o sonho, por se tratar de uma imersão dos fatos constituídos, vistos de uma ótica de seleção. Partindo dessa visão pessoal do autor desse texto, podemos compor uma visão estética de Tarkovsky no tratamento ao longa “Espelho”. É perceptível a própria intensão de tratamento da cadencia de imagens dentro dessa estrutura, iniciada pelo processo de hipnose do personagem adulto de Ignat, filho do autor, e em certos momentos da narrativa, sua personificação.

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No entorno do filme Espelho (no original Zerkalo de 1975), Tarkovsky realiza um trabalho autobiográfico, explorando as memórias no conceito narrativo de tempo esculpido, ao fragmentar e consolidar o tempo em tela. De acordo com Jacques Aumont, para Tarkovsky o tempo passado pré-roga o tempo presente, transferindo-o para uma cadência de tempo diferente e único, alheio ou integro ao tempo real (AUMONT, Jacques.2002. pag. 33). O papel do cineasta é o fomento dessa experimentação única de tempo, devido à possibilidade da montagem enquanto construtora desse tempo esculpido (AUMONT, Jacques. 2002. Pag. 34-35).

Se misturarmos o conceito de Tarkovsky e seu tratamento da imagem enquanto um “estado quase puro nas reflexões de Tarkovsky” (AUMONT, Jacques.2002. pag. 62), poderemos aferir acerca de sua capacidade de encontro com a fomentação de significâncias da imagem. Porem ele teorizava acerca desse absolutismo sobre a dimensão do natural relacionada à iluminação captada pela película, traduzida como fomento de emoções. Essas emoções, entretanto, não são passadas pela película em si, mas sim pelo mundo que é captado por ela e ao ser entendido pelo espectador, esse poderia enxergar, de acordo com suas vivências, as formas da emoção no seu estado mais natural (2002. pag. 126-127).

Dentro de sua teoria, Tarkovsky aproximasse de Bresson ao realizar uma teorização complexa a serviço da capacidade do cineasta de utilizar o cinema como forma de criação artística que perpassa entre as variantes da intenção do cineasta e a noção da captação da capacidade do filme de “criar ou recriar uma experiência, que deve ser vivida pela primeira vez durante a filmagem.” (AUMONT, Jacques. 2002. pag. 62-63). Partindo disso, fomenta-se que o cineasta é o ser que tem ciência da unidade do filme, enquanto obra completa, no entanto, o artista deve trabalhar no encontro da intenção com a não-intencionalidade do cinema como um todo, algo bem próximo do Encontro de Bresson.

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Adentrando novamente no filme Espelho poderemos reparar, logo no segundo plano do filme, onde um jovem adulto Ignat, filho e representante visual de Andrej Tarkovsky, está passando por um tratamento psicanalítico contra a gagueira. Partindo da não-intencionalidade da obra de Tarkovsky, que alegadamente não utilizava metáforas, podemos constituir nossas próprias metáforas. Dentro disso, esse plano exato perpassa por duas metáforas que guiam o restante da narrativa, constitutivamente, sendo possível enxergar que o exercício que o cineasta realiza nesse filme autobiográfico é doloroso e difícil, representado na gagueira de Ignat. Além disso, numa leitura um pouco mais superficial, podemos verificar que essa sessão de terapia é constituída nas memórias do jovem adulto Ignat, que se confundem com a do seu pai, partindo assim um filme terapia.

O cinema é uma fórmula incessante que combina a imagem e o som de maneira a fomentar no imaginário um universo incessante de sentidos e sensações. Ele é interdependente da necessidade do espectador, conforme defende Tarkovsky (1998) e não só por isso, também pelo aparato psíquico do espectador, dotado da necessidade de conhecer, mediante o olhar, um novo mundo, uma nova realidade. Ele também nasce da necessidade dupla do realizador de captar imagens, de maneira voyeurista, e exibi-las, de maneira exibicionista. Ele nasce da necessidade que o realizador tem de criar uma via dupla a sua apreensão do mundo pelo olhar. Espelho é uma forma temporal, que revisita passagens anteriores, para fazer ver as dores internas e contítui-las enquanto matéria filmica, vinda dos abismos dos traumas decorrentes de uma vida. No caso do longa, Tarkovsky parte dessa vontade de apreender o mundo pelo olhar, mas se volta para o mundo interno, o mundo do próprio cineasta. Daí, a partir de sua exibição para o mundo, é possível se ver com os olhos dos outros, e talvez assim dar conta de si mesmo.

Referências:

AUMONT, Jacques (2002), “A Teoria dos Cineastas. Campinas; Papirus, 2004

TARKOVSKI, Andrej (1998), “Esculpir o Tempo”. São Paulo; Martins Fontes, 1998