Nunca é noite no Mapa

A indiferença: Marca da modernidade digital

A cartografia política de Nunca é noite no Mapa

Por Julio Cruz

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A indiferença do mundo moderno é algo gritante e os traços geográficos de uma nova cartografia digital são uma prova em código binário disso. Nunca é Noite no Mapa, curta-metragem de Ernesto de Carvalho é um desses pequenos grandes filmes, com uma duração ínfima, mas que desvela, por intermédio de um texto aberto e de imagens de domínio “público” uma imensidão captada, não por sua câmera, mas pela câmera de uma viatura, a viatura do Google Maps. Nos seus 6 minutos as dimensões políticas e estéticas se colidem, e uma voz indiferente, quase tanto quanto o mapa, conflui uma poesia das questões de um Brasil assolado pelas intransigências dos mega-eventos.

Uma das primeiras frases do poema recitado por Ernesto traz uma fascinação em relação à matéria fílmica que está posta, que dificilmente é comparável com outras obras, e que traz em si um contexto desolador que vai acompanhar todo o restante das imagens. Em menos de 30 segundos de filme, Ernesto diz “Eu estou dentro do mapa”. A partir daí, a reflexo de sua presença, e de onde surge essa frase, de uma vista aérea de Olinda, já estamos todos envolvidos. Ernesto é apenas o porta-voz, é apenas o recorte específico desta obra. Nós todos estamos dentro do mapa, quer queiramos ou não. E isso é assustador. Afinal, “o mapa não se importa se estou dentro dele ou não”. E como as imagens revelam, ele nem ao menos se importa com aquilo que vislumbra e capta, ele apenas observa, indiferente àquilo que vê.

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Além da cartografia, a indiferença também atinge a violência. É um olho que tudo vê, mas que nada julga, e não intercede em prol daqueles que são fitados. Há cenas cotidianas da violência policial captadas pelas câmeras da viatura do mapa, mas, assim como o policial que passa próximo à Ernesto, essas cenas são ignoradas. Nesses episódios temos os sinais mais fortes da ironia do texto do filme. A voz de Ernesto diz que “todos são iguais perante a lei/todos são iguais perante o mapa” ao fitar a primeira de uma série de abordagens policiais. Na imagem, entremeio o letreiro de sua posição geográfica, três rapazes negros, estão contra um muro branco com as mãos na cabeça. Daí ocorre a primeira saída dos limites de Olinda, ampliando o sentimento apocalíptico que inicia o texto. Temos logo na sequência imagens da periferia de São Paulo, onde sete rapazes são abordados por um grupo de policiais. Temos outra imagem, novamente no Estado do sudeste, dessa vez com três rapazes. E depois uma rápida viagem ao Rio de Janeiro, onde dois rapazes, claramente menores de idade, negros, num bairro periférico, são abordados por policiais, que nem se dão ao trabalho de sair da viatura. Nesse bloco há uma perspectiva temporal que fica intrínseca ao que se vê. São rapazes de idades distintas, onde aparentemente todos partem desses dois menores, acostumados desde cedo às viaturas da Polícia os verem iguais perante a lei. Sempre culpados, até que se prove o contrário. Esse tom desolador é ampliado por intermédio dessa dimensão de quebra de barreira geográfica. Fura-se a bolha do estado de Pernambuco, e aquela abordagem inicial torna-se algo universal, assim como o fato de que todos estamos no mapa.

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Essa cartografia digital ainda registra o tempo, mas não qualquer tempo. Ela registra um tempo excludente, expõe, de maneira apática e asséptica, as mudanças do cenário, que escondem aquilo que os megaeventos não querem ver. Essa cartografia, porém, não é alheia a isso. Ela é cúmplice. O mapa só vai onde as outras viaturas já foram. Ele só vai onde o estado transformou a paisagem. Em dado momento, aos três minutos de filme, somos apresentados à uma rua de terra. Os registros dessa rua começam em 2011. Mas ela é apenas um fundo de uma imagem. Apenas um background. A medida que a paisagem se transforma e exclui diversas casas, que são demolidas pelas viaturas da prefeitura, o mapa já pode passar. Já está tudo limpo para sua passagem. Só aí, o mapa pode entrar e registrar a R. Ibiporã. Porém, a 200m de distância, Ernesto registra um local. Um bar com um letreiro onde lê-se “Aluga-se casas e quarto”. Nesse mesmo período registrado da R. Ibiporã e seu destino paisagístico em 2015, Ernesto mostra o que ocorre com esse bar, que é destruído por ação das viaturas da Cidade Nova. Daí, dessa justaposição temporal nota-se que o mapa não registra as ruas. Ele registra apenas a sua visão ideal. Ele só vai até elas, e só as percorre quando elas recebem coisas que os seus moradores lutam por anos para conseguir, mas que, quando conseguem, tem de ir embora daquele lugar. São empurrados novamente para a margem do mapa, onde ele não vai.

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Vamos daí ao registro do Rio de Janeiro, da cidade olímpica de 2016. Do registro de uma frase pichada no muro, uma citação do prefeito Eduardo Paes, a ironia da frase em meio à um mundo de concreto e aço, visto por cima de um muro cinza é escancarada. Ernesto ainda faz uso da repetição para o reforço dessa ironia que é mais latente ao escolher a aproximação do rosto de um índio desenhado no mesmo muro na segunda leitura da frase “Vai sair quem quiser, quem não quiser fica”. Nisso se dá a explosão do extra-filme, da vida real, do além da cartografia digital. Assim como os moradores da R Ibiporã, e o bar que alugava casas e quarto, os índios, residentes da Aldeia Maracanã, situada no antigo Museu do Índio, tiveram de dar lugar para a nova cidade e suas viaturas. Por mais que não quisessem sair, saíram. E daí, a ironia da frase implodir em apenas um silêncio dado por Ernesto por alguns segundos. Na mise-en-scéne da captura da tela do mapa digital, a câmera denota que, o andaime da nova cidade está tentando esmagar o índio da antiga, que ainda resiste, mas apresenta sinais de que irá se tornar parte do muro cinza e desaparecer sob o reboco olímpico.

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Ernesto confere à cada uma das viaturas um adjetivo, quando vai, aos quatro minutos de filme, à cidade olímpica. São três tipos de viatura: as da polícia são imparciais, as da Nova Cidade são olímpicas, e a do mapa é indiferente. Há uma importância singular na escolha da palavra “viatura” para conceituar o carro do google maps e os veículos empregados na reforma das cidades, para além das viaturas policiais. Apesar de que, de acordo com o próprio google, “Viatura é a designação genérica de qualquer veículo ou meio de transporte”, esse termo é facilmente associado aos veículos militares, veículos esses que na história recente do país são utilizados na forma de maquinas de repressão sobre rodas. Daí, a vincular essa imagem, esse signo, à figura de um veículo de uma empresa privada, que cartografa as cidades por todo o mundo, numa tentativa macabra de colocar tudo e todos no mapa, desde que atinjam um nível desejado de assepsia social, é a cereja do bolo que é Nunca é noite no Mapa.