Uma Rua Chamada Pecado

Por Vitor Miranda

Podemos dizer que os anos 50 no cinema americano foram de transferência. No contexto pós Segunda Guerra Mundial, o cinema clássico dava lugar aos poucos ao cinema moderno, assim, os personagens e as tramas se tornavam cada vez mais ambíguas e sombrias. Com o Código Hays à pleno vapor, os diretores utilizavam a criatividade e o talento para abordar certas temáticas driblando a censura com esconderijos à plena vista: sexo, drogas, suicídio, homossexualidade, prostituição, etc.

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Elia Kazan foi um de seus principais representantes e em 1951 adaptou a peça O Bonde Chamado Desejo do dramaturgo Tennessee Williams. O polêmico Uma Rua Chamada Pecado projetou a carreira internacional do jovem Marlon Brando, que se tornou símbolo sexual instantaneamente. A trama cheia de significados ocultos gira em torno da história de Blanche DuBois (Vivien Leigh), uma mulher misteriosa que vai passar uma temporada na casa de sua irmã, Stella Kowalski (Kim Hunter), e de seu cunhado, Stanley (Marlon Brando). Dividida entre a revolta pela personalidade bruta de Stanley e pela tensão sexual que se estabelece entre os dois, Blanche começa a entrar em um processo enlouquecedor ao relembrar do seu passado nebuloso e logo seus verdadeiros segredos começam a ser desvelados por essa situação.

Laura Mulvey em seu texto “O Prazer Visual e o Cinema Narrativo” aborda os conceitos de Freud sobre escopofilia e aplica no cinema: o prazer sexual a partir do olhar. A mulher existe na cultura patriarcal como objeto sexual do outro masculino e o cinema faz um papel triplamente voyeurístico: a câmera que enquadra a atriz, o olhar do espectador e o olhar dos personagens do filme.

O que podemos perceber em Uma Rua Chamada Pecado é uma tentativa pioneira de ruptura nesses paradigmas: a protagonista Blanche não tem nenhum artifício estético que a identifique como objeto sexual, (mesmo se tratando da já estrela Vivien Leigh, de E o Vento Levou…). Na verdade ela é desejante: ela deseja o corpo másculo e viril de Marlon Brando, assim como o espectador. Para isso, Elia Kazan dedica diversas cenas em que existe essa espécie de suspensão narrativa dedicada a admiração de Brando como um incitador de desejo e emoções: em close-up, sujo, suado, forte com os músculos aparecendo e tirando a camisa, demonstrando sua virilidade sexual.

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Podemos perceber nas figuras 1 e 2 que a personagem Blanche está em uma posição de observação em relação ao personagem Stanley. Ela tem prazer sexual pelo olhar, assim como o espectador. Na figura 3, vemos em detalhes o personagem e identificamos esteticamente os artificios utilizados pelo filme para fazê-lo se tornar um objeto de desejo: o aspecto sujo, despojado, selvagem, viril, forte e os músculos à mostra. Na figura 4, Stanley pede perdão ao agredir sua esposa Stella. Como resistir?

Tal abordagem representa uma ruptura à convenção de objeto de desejo atribuido somente à mulher que imperava até aquele momento no cinema, nunca se tinha tido essa abordagem do desejo feminino. Porém, problematizações devem ser feitas também baseadas nas reflexoes de Laura Mulvey. Apesar da figura de Brando ser o objeto sexual ele também tem o papel de projetar o ego do espectador em suas ações durante o filme.

“As características glamorosas de um astro masculino não são as mesmas do objeto erótico do olhar, e sim aquelas pertencentes ao mais perfeito, mais completo, mais poderoso ego ideal concebido no momento original de reconhecimento frente ao espelho. O personagem na história pode fazer com que as coisas aconteçam e pode controlar os eventos bem melhor do que o sujeito/espectador, da mesma forma em que a imagem no espelho exibia um maior controle da coordenação motora” (MULVEY, Laura, 1975, p.446)

Através da teoria de estádio do espelho de Lacan, Mulvey estabelece uma comparação entre tela e espelho, em que a tela, assim como espelho, seria mediadora de projeções de personalidade e assim, de certa forma também as moldaria. O cinema produz egos ideais a partir de estrelas como Marlon Brando, no filme ele é o que todo homem deseja ser e o espectador projeta o desejo de suas ações no personagem. Ele é o operário imigrante viril, símbolo do desenvolvimento industrial, comanda as ações do filme e submete as duas irmãs às suas fantasias e obsessões. Blanche representa toda a fragilidade e decadência de uma aristocracia que cheira a mofo, de um sistema patriarcal que leva às ruínas a psiquê feminina.

“Mulvey observa que certamente a ideologia constitutiva nesses filmes contribuiu significativamente para reforçar uma imagem já cristalizada em nossas mentes (…), engendrando uma inequívoca identificação com o espectador. Chama também a atenção o fato de que esses enredos reforçaram perfis estereotipados e maniqueístas de mulheres em duas categorias exclusivas, seguindo uma estruturação de narrativa fílmica pautada em dois esquemas em funcionamento de uma ordem simbólica caracterizadora da figura feminina como objeto. Seja da mulher como a bela e obediente dona de casa e progenitora ou como as das prostitutas dos salões de baile. Sem dúvida, esses dois tipos clássicos encontram-se retratados em Um bonde chamado desejo sendo a doce e indefesa Stella o primeiro tipo e a desvairada Blanche o segundo.” (FELIX, José Carlos,p.642, 2016)

No decorrer da trama, Stanley bate na própria esposa que sempre volta para seus braços e toma posse de Blanche desmascarando-a, inferiorizando-a e até mesmo estuprando-a. É assustador refletir sobre o que Mulvey apresenta e conseguir vislumbrar, através da representação de Brando, uma peça de um imaginário que reflete padrões de comportamento machistas enraizados.

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Em termos psicanalíticos, as atitudes de Stanley perante Blanche e sua esposa Stella representam o trauma da ameaça de castração implicada pela falta do pênis presente nas duas. No inconsciente masculino percebemos alternativas para a ansiedade da castração e manter a ameaça sob seu total controle. Existe uma “preocupação com a reencarnação do trauma original (investigando a mulher, desmistificando seu mistério)” (MULVEY, Laura. 2016. p.447) que observamos em Stanley quando descobre os segredos mais profundos e obscuros de Blanche e a desmascara para Mitch e a sociedade. Ele utiliza da força física, quando não sexual, para manter o controle e submeter a pessoa culpada à punição (Blanche) ou ao perdão e redenção (Stella).

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Existem teorias que comparam a personagem Blanche à na verdade uma versão insinuada e escondida de um personagem homossexual afeminado e Stanley como seu objeto de desejo, as injúrias de Stanley a Blanche se assemelham as que o homossexual afeminado recebe por desempenhar um papel não heteronormativo. Além disso, Blanche é constantemente questionada por Mitch e Stanley enquanto a sua verdadeira identidade “como mulher” e seu envolvimento misterioso com um “jovem rapaz”, que parece ter suicidado. Tal viés lembra Navalha na Carne, uma peça teatral de Plínio Marcos que também foi adaptada homonimamente para o cinema por Neville de Almeida em 1997 estrelando Vera Fischer. Na trama, também temos o homem viril dominador e abusivo com a mulher e a terceira figura também dominada de um homossexual afeminado.

Com atuações primorosas e diálogos ácidos e bem escritos, é difícil não se envolver com a condução de Uma Rua Chamada Pecado. O papel de Stanley abriu caminho para Marlon Brando construir sua carreira e teve enorme influencia na cultura popular, e no decorrer das décadas, se tornou o estereótipo do macho, sendo reproduzido constantemente até os dias atuais como em Blue Jasmine (Woody Allen, 2013)

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REFERÊNCIAS

MULVEY, L. Prazer visual e cinema narrativo. Trad. João Luiz Vieira. In: XAVIER. I. (Org.) A experiência do cinema. 3ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Graal, 2003, p. 437-453.

RODRIGUEZ, Kabe. BODY = LITERATURE. Ensaio sobre Um Bonde Chamado Desejo, metáforas e perversões. Disponível em:<http://lalitteratureducorps.blogspot.com.br/&gt;. Acesso em: 13 de novembro 2016

FELIX, José Carlos. REPRESENTAÇÕES E ESTEREÓTIPOS EM UM BONDE CHAMADO DESEJO: CONFLITO ENTRE PASSADO E PRESENTE NA CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES NA LITERATURA E CINEMA DO PÓS-GUERRA. Disponível em:<http://www.assis.unesp.br/Home/PosGraduacao/Letras/ColoquioLetras/josecarlos.pdf/&gt;. Acesso em: 13 de novembro 2016