Universo Cinematográfico da Marvel

A Uniformização como palavra de ordem

Cinema de fast food no Universo Cinematográfico da Marvel

Por Julio Cruz

Sim, você não leu errado. Cinema Proletário está vindo com um texto sobre o Universo Cinematográfico da Marvel.

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Bem, de um ponto de vista da dinâmica que circunda as escolhas editoriais dessa revista, ao se deparar com um texto sobre esses filmes já é esperado que iríamos com uma série de críticas sobre esse universo. Mas, surpreendentemente, até para mim, numa véspera de Natal às duas da manhã, será esse o caso, mas não tanto assim (estritamente, porque o dedo coça pra criticar um blockbuster como esses e tem hora que não dá pra segurar). Então, ao invés do confronto básico ou a ignorância sobre a existência desse título, que eu geralmente faço, quero focar em algo diferente dessa vez. Ao invés de focar só nesse super símbolo de patriotismo neoliberal e as relações que ele estabelece com o status-quo americano e da indústria de blockbusters em série que é essa empreitada até 2020 da Disney, e como o sucesso desses filmes travou Hollywood numa crise criativa onde quase nada é original, ou como o cinema enquanto uma forma de arte nos EUA está sendo deixado de lado a cada novo hit de verão, eu vou escrever em outro caminho dessa vez. Vou tentar analisar esses filmes pelo que eles são, tentando sair um pouco do viés político e artístico que essa crítica poderia tomar. Vou analisá-los puxando-os apenas como os blockbusters que são, trazendo aspectos diferentes que compõem seus próprios contextos de produção, o Universo Cinematográfico, conceito um tanto recente na história da indústria cinematográfica. Aqui, tentarei estabelecer como que o sucesso de um filme desses, e como os sucessos das franquias da Disney tem puxado para uma uniformização desse tipo de gênero (tanto blockbusters quanto super-heróis), transformando esses filmes em uma série de expectativas previsíveis, que acabam por atrair muita crítica quando alguém tenta fazer algo um pouco diferente cinematograficamente e tematicamente (sim, eu estou falando da trupe do Zack Snyder), transformando o cinema num lanche do McDonald’s, onde se você pega algo diferente dos dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim, você irá reclamar como se não houvesse amanhã.

Para tirar algo do caminho já de uma vez devo dizer: Não, eu não gostei de Guerra Civil, e diria que eu nem gostei do restante dos filmes da Marvel ou da DC, por mais que consiga encontrar mais coisas defensáveis nos últimos. Em ambos os casos, há uma série de problemas com esses filmes, politicamente, esteticamente e artisticamente falando, mas, pela quantidade de filmes que acabei assistindo nessa temporada de Natal 2016 um monte de questões surgiram na minha cabeça e já que estamos problematizando esses filmes na madrugada, porque não trazer para uma forma textual? Para puxar o bonde, vamos usar Capitão América: Guerra Civil que consegue se destacar em seu universo. Nele há uma elaboração de tentar tratar o filme como algo que é essencialmente o que se pagou para ver: um filme de super heróis. E por mais que eles tentem colocar um pouco de investigação e ações dignas dos filmes de James Bond da era de Daniel Craig, no fim do dia, a carne principal do cardápio é te jogar na cara todos aqueles poderes, fantasias, e lutas fantásticas que você como criança/adolescente ficava se perguntando como seria na tela grande com gente de verdade. Claro, podemos argumentar que isso já havia sido feito anteriormente com os Vingadores 1 e 2, que inclusive tem cenas ostensivas de dois ou mais heróis se degladiando, mas fanservice nunca chegou nas telas como chegou nas mais de duas horas do símbolo americano da Marvel. Mas bem, mesmo considerando a quem esse filme é dirigido – já que estamos falando de um blockbuster e neles o público alvo é algo bastante visualizado – seria realmente, citando Kevin Smith em sua participação no Movie Fights do canal de youtube Screen Junkies, cineasta da década de 90, que realizou o Clerks em 1994 e que, depois de ser um dos nomes mais interessantes da década de 90 na comédia, se tornou um geek/nerd em tempo integral no youtube, um filme perfeito onde a pior parte é os créditos, por acabar com a experiência do filme? Essa é a pergunta de um bilhão de dólares que faz meu cérebro coçar e a insônia bater. E já que é pra partir de algum lugar, o escolhido da vez é Capitão América: Guerra Civil.

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Uniformização

Quando eu falo de uniformização, claro, não estou me referindo ao fato de ter 10 ou mais personagens uniformizados em tela de uma vez só (me referindo aqui à famigerada cena do aeroporto em Guerra Civil). Eu falo de um aspecto que o Universo Cinematográfico da Marvel tem pegado emprestado da TV, mas de uma forma bastante ruim. Se considerarmos uma série de TV, cada episódio é dirigido por alguém diferente, colocando uma pitada aqui e outra ali de seu estilo visual próprio (nos melhores casos), mas sempre procurando se manter dentro da fórmula que foi buscada no episódio piloto. O que a TV atual tem feito de certo nesse aspecto é que ela puxa algum cineasta com uma visão estética contundente, nos melhores casos um autor propriamente dito como Scorsese para Boardwalk Empire ou David Fincher para House of Cards, para que as séries já nasçam com um estilo visual rico, a ser trabalhado ao longo do enredo. Em alguns casos até ousando e experimentando com a linguagem audiovisual, construindo uma narrativa iconoclasta que abusa de todos os artifícios que o cinema e as artes plásticas tem à oferecer, como é o caso de Hannibal. Bom, se puxarmos um pouquinho mais as fronteiras do Universo Cinematográfico da Marvel e incluirmos as séries de TV, eles fazem esse acerto em Jessica Jones e suas inspirações no Noir e Demolidor e seus fantásticos planos sequências de luta inspirados no cinema coreano. E, se cito TV nesse caso, não é à toa. Assim como os filmes blockbuster, a TV também é feita com o intuito de ser um veículo de massa, olhando para a audiência antes de qualquer coisa.

Não me entenda errado. Eu consigo notar as diferenças estéticas de um Guardiões da Galáxia com uma narrativa mais voltada para um lado tarantinesco de um filme do Thor que se alia a um lado mais fantasioso de construção de mundos coloridos e falas eloquentes, ou um Homem-Formiga e seu filme a la 11 homens e um Segredo, com um Vingadores que é um amálgama de todas as franquias com mais enfoque no estilo Homem de Ferro de contar as coisas (que nesse caso, poderíamos considerar o filme de Jon Favreau o piloto de tudo que viria a ser produzido no MCU). Mas no final das contas não há um elemento artístico que se destaque em meio à essas várias combinações de roupas coloridas e super-poderes. As saídas para qualquer tipo de efeito emocional são sempre as mais seguras possíveis no uso de tudo, seja trilha-sonora, seja movimentação de câmera, diálogo, montagem, o que quer que seja.

Em relação à música, há um vídeo que compila bem o quão preguiçoso é o pensamento estético Marvel. O vídeo The Marvel Symphonic Universe (para quem não entende de inglês há legendas em português) do canal Every Frame a Painting parte de uma pergunta simples. O entrevistador anda pelas ruas de Vancouver perguntando para os transeuntes se eles se lembram de alguma música de algum dos filmes de Star Wars, 007, e Harry Potter. Por último ele inquire sobre alguma música de qualquer longa da Marvel, e não há uma única resposta. Nesse aspecto, a Marvel tem um estilo bastante uniformizador. Para ela a música não deve ser notada, mas deve ser usada em todos os momentos possíveis. Ela é o closed-caption dos espectadores que não conseguem entender o que está diante dos seus olhos, num dos maiores atestados de desconfiança sobre o cérebro pensante de alguém que paga para ver filmes que posso pensar na atualidade. Portanto, podemos categorizar a trilha sonora Marvel de três maneiras: a inofensiva, a previsível e a abafada.

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A trilha Inofensiva é aquela que, além de não ser percebida, ela também não tem nenhuma função aparente, além de servir como um estepe sonoro para a cena. Ela não está ali para evocar emoções ou comentar a imagem. Sua única função é de não deixar que haja um momento de silêncio no filme, e para esconder as demais peças musicais que virão no decorrer do filme. A previsível é aquela que serve como as plaquinhas de programas de auditório. Se há um momento assustador, uma nota grave nos avisa que é hora de ficar apreensivos. Num momento de tristeza, aquele quarteto de violinos vêm nos avisar que é hora de nos importarmos com aquele acontecimento (mesmo, e principalmente em caso de mortes de personagens que sabemos que não irão ficar mortos por muito tempo, ou que passamos menos de cinco minutos com ele). Basicamente, o pensamento geral é de que os filmes são direcionados à robôs que precisam de um empurrãozinho para entender emoções humanas. Já a abafada é aquela trilha que deveria se tornar memorável, que deveria ser citada numa pergunta como a do início do vídeo supracitado. Ela consegue captar algo além de uma bula emocional, e sumariza tudo que o personagem significa em seu universo ou que consegue imprimir nas notas o tema geral. É a trilha de entrada de Darth Vader em Star Wars, é a Man with a Harmonica de Ennio Morricone para Era uma Vez no Oeste. Porém, como há um medo de que o espectador não seja inteligente o suficiente para captar a emoção correta da cena, algum áudio diegético virá para nos contar algo que já sabemos e, consequentemente, resumir aquilo que a música quer evocar.

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Em relação aos enquadramentos, movimentações de câmera e ao processo de montagem, há uma primazia pela segurança que inunda cada uma das obras, onde o maior registro de radicalismo seria a sequência de mugshots de Guardiões da Galáxia, onde os personagens olham para a câmera diegéticamente, mas que coincidentemente, por uma gag visual, acaba sendo também a câmera do filme. Porém, num aspecto geral, não há um pensamento extenso para além de como realizar cada cena com o máximo de segurança de que o sentido será entendido pelo espectador. Se estamos em uma cidade nova, começamos por elementos que identifiquem aquela cidade, uma panorâmica geral, grande parte das vezes em uma tomada aérea. Para reforçar, colocamos um letreiro (no caso de Guerra Civil, numa fonte que ocupa mais de dois terços da tela), com o nome do local. O mais ousado nesse caso é o próprio Guerra Civil que traz apenas um letreiro de Cleeveland, mas que a cena começa em uma tomada interna. Se estamos em uma cena emocionante, vamos de close-up. Se é uma cena de ação, variamos entre um plano médio, um plano de conjunto e um plano americano, mas sempre sem transições muito bruscas. Algumas vezes variamos, imprimimos alguma movimentação rápida, com um leve chicote de câmera, indo do plano detalhe de Thor pegando seu martelo no chão, para um plano de conjunto, dele acertando algum capanga sem alma (irei a esse aspecto em breve). E a montagem é realizada em intermediar essas ações da maneira mais segura possível. Cortes rápidos sempre, em cenas de ação desenfreada, algumas vezes pulando de um grupo ou um herói individual para o outro, para evocar uma ideia de dinamismo e fazer valer o fato de que estamos mesmo com todos os seus heróis preferidos participando nessa luta. Para ser ainda mais detalhista, vou propor um experimento, e para não ser injusto, coloquemos dois filmes da classe do blockbuster de super-herói. Ainda, para lançar mão de mais similaridades de julgamento, coloquemos duas cenas com a mesma proposta (que aliás, se torna bizarro que ambas tenham tanto a ver em relação ao seu motivo de existência no roteiro). Estou falando das cenas de atentado a bomba de Batman V Superman e Capitão América: Guerra Civil. Infelizmente, a segunda não está nos youtubes da vida, portanto, trabalhemos com algumas imagens. A primeira segue no link.

Em Batman V Superman temos uma construção praticamente que se relaciona à tudo que fora visto até então, construída através de signos. Na trilha, após a entrada de Superman no auditório do Capitólio, ao fechar das portas a trilha sonora cessa. Durante as falas da senadora do Kentucky, temos três eixos de câmera principais, e todos eles vão se movimentando lentamente, saindo de um primeiro plano para um primeiríssimo plano de Superman e da senadora, sendo o primeiríssimo plano sincronizado com a realização da senadora da armadilha de Lex Luthor e a subsequente visualização de que algo estaria errado, por Superman. O espectador capta essas pistas junto aos personagens, quando Zack Snyder mostra a cadeira de Lex vazia, o jarro com os dizeres “Granny’s Peach tea” ou “Chá de Pêssego da vovó” em bom português, o nervosismo da senadora, e as dicas impressas durante todo o primeiro ato do filme. A explosão vai do micro ao macro. Sendo um evento que irá mover toda uma onda de protestos e ressonar na vida de diversos personagens, ela sai dos confinamentos do salão da audiência, percorre os corredores, causa uma onda de choque nos protestantes em volta do Capitólio, e causa a quebra de uma cafeteira, carregada por Martha Kent, quilômetros de distância do local. Após a explosão, o ritmo da montagem decai, tendo Superman entendendo o que significarão aquelas chamas que o rodeiam, recebendo o choque do ocorrido. A trilha, já que falamos tão ostensivamente em relação às escolhas musicais da Marvel, nesse momento, apesar de haver um tom de genérica, se mistura com o tom da cena. Os gritos de horror da plateia de protestantes se mistura às notas executadas. Apesar de servir como apoio, há uma impressão daquilo que se escuta, já que é feita da matéria da cena em si.

Por outro lado, no caso do nosso companheiro azul, branco e vermelho de escudo, começamos por um movimento de câmera lateral, que nos mostra os jornalistas ao redor do prédio da ONU em Viena. Na banda sonora, faz-se questão de colocar algum repórter americano repetindo aquilo que foi dito menos de 10 minutos antes (que essa reunião será para a assinatura de um plano de controle dos Vingadores, assinada por 117 países e blablabla), já que nunca se pode confiar na memória do espectador em relação à dados expositivos. Após o corte, somos introduzidos à T’Challa, príncipe de Wakanda. A câmera, postada em contra-plongée, nos diz que ele será bastante importante em breve, e que ele é uma figura de poder. Temos um diálogo entre T’Challa, Viúva Negra e o Rei de Wakanda, onde aprendemos que o Rei é um bom homem, com uma série de conselhos e discursos louváveis do livro de senso comum de qualquer figura sábia que serve como mentor para algum herói 1.0, e assim, devemos criar uma empatia com esse personagem. Durante o discurso, T’Challa percebe uma movimentação estranha da polícia, em volta de um furgão na rua, visto do ponto de vista dele, num plano geral descritivo. Ele corre e a explosão toma lugar num plano geral do auditório, e depois um plano aéreo do prédio. Após isso, em uma série de planos com câmera baixa, uma trilha sonora melodramática, e uma câmera lenta, T’Challa tenta acudir seu pai já morto. Não há um som diegético nessa cena, apenas a trilha sonora que tenta evocar um sentimento de luto por um personagem que conhecemos minutos antes. E daí, cortamos para as escapadas românticas de Steve Rogers.

Claro que o leitor pode pensar que estou sendo parcial em relação à esse experimento proposto acima, na forma como descrevi as cenas e etc. Portanto, vou apenas deixar a pergunta no ar, com o pedido de que revisitem ambas e me contem: qual delas é mais interessante e bem construída?

O cerceamento da criatividade

Nessas próprias imagens propostas acima, o espectador pode perceber uma coisa, que coloco abaixo alguns frames de outros filmes do MCU a título de comparação. Como a Disney consegue produzir tantos diretores de fotografia com visões tão parecidas? Bem, de volta às redes mundiais de computadores, outro vídeo vem dar as caras, dessa vez um ensaio do canal Patrick (H) Williams chamado Why do Marvel’s Movies look kind of Ugly, ou, em bom português, Porque os filmes da Marvel parecem meio feios. Como o vídeo vai discorrer sobre, tentarei ser breve. Há um pensamento por trás desses longas de manter as coisas o mais próximo das imagens já captadas na câmera. Para esses estúdios, um filme do Thor tem que ter a mesma relação de cor de um filme do Homem de Ferro, ou do Homem-Formiga, e derivados. Porém, para além dessa pretensa uniformização, que já tratei extensamente, os fotógrafos são cerceados de qualquer inventividade em relação à luz. Lembro-me agora de uma aula de direção de fotografia que tive nos tempos áureos da faculdade. Nesse tempo, olhando de forma generalista para as produções da TV da época, havia algo em comum entre todas. As escolhas de luz nunca podiam deixar nada sem iluminação. Tudo mostrado em tela tinha que ser visto claramente. Claro, muita coisa mudou, em relação à TV. Mas quando vemos uma dessas produções de super-heróis, o que temos é um medo de botar um dedo a mais no contraste, ou que percamos qualquer tipo de informação expositiva. Daí, aquela iluminação padrão de 3 pontos, com luzes super potentes, sem nenhuma decorrência de sombra é a palavra da vez.

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Vingadores (2012)
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Homem-Formiga (2015)
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Homem de Ferro (2008)
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Thor (2011)

Essas preposições me lembram de uma anedota hollywoodiana, acerca de Cidadão Kane de Orson Welles. Na história, Gregg Toland, grande diretor de fotografia, que começou sua carreira em 1926, e tem em seu cinturão de sucessos filmes como Vinhas da Ira, Dr. Gogol – Médico Louco e O Morro dos Ventos Uivantes, durante uma das primeiras conversas com Welles receberia uma frase que o marcaria. Aquele garoto de 24/25 anos lhe diz que ele deveria esquecer tudo que aprendera até então. O resultado disso, mesmo com vários protestos de Toland, são cenas primorosas, como a cena da sala de cinema, a visita à biblioteca. E acaba nos fazendo questionar, como Hollywood desaprendeu tanto em 70 anos de história?

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Bem, uma das coisas mais notórias é a escolha de diretores que a Disney faz. Sobretudo o que eles fazem quando alguém se torna criativo demais. Acho que muita gente deve se lembrar que Edgar Wright, um cineasta proeminente da comédia, que tem em seu currículo filmes como Shaun of the Dead (que eu não vou colocar o título em português aqui por protesto), Chumbo Grosso, Heróis de Ressaca, saiu da direção de Homem-Formiga. Wright possui uma forma de fazer filmes bastante estilizada, que pode-se considerar, inclusive, autoral, completamente alinhada aos signos de uma geração atual. E além disso, ele fez um dos filmes sobre quadrinhos independentes mais bem sucedidos dos últimos anos, o Scott Pilgrim de 2010 (que muita gente considera sendo mais um longa sobre videogames, do que um filme de quadrinhos, mas não vamos entrar nesse mérito aqui). Porém, enquanto Wright trabalhou anos com o roteiro, transformando o personagem e a película em algo que poderia ser surpreendentemente original, a Marvel preferiu tomar the easy way out, modificando substancialmente a história, sem a participação do cineasta, que decidiu dar no pé.

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Wright e sua história são um sintoma de algo que pouca gente se questiona (que eu saiba, ao menos). A Marvel odeia visões originais. Tanto que, se pegarmos os principais diretores da franquia, e revisarmos seus históricos, o que encontramos é um bando de executores e gerentes de filmagem, com episódios de televisão e filmes irrelevantes. Os Irmãos Russo (Joe Russo e Anthony Russo), por exemplo, tem 24 títulos em sua página do IMDB, sendo deles 15 títulos de produções voltadas para a telinha. Não me entenda mal, há autores trabalhando nos canais hoje em dia, e alguns indo, inclusive, para as mídias internáuticas, e também temos gente como Sidney Lumet, Robert Altman, e o próprio Edgar Wright que saíram de lá para imprimir suas marcas na história do cinema. Mas acredite em mim, os Irmãos Russo, muito dificilmente serão exemplos disso.

Política

Para fecharmos, não dá pra eu não levantar a bandeira da política num site com o nome de Cinema Proletário, não é mesmo? Mas tentemos ser breves falando apenas em alguns números, em relação ao mundo real para fechar.

Dá última vez que houve uma estreia da Marvel, se não me engano, foi Doutor Estranho, quantas salas de cinema foram ocupadas pelo mesmo filme no Brasil? Eu te pergunto e eu te respondo: 1288. Quantas salas de cinema existem Brasil afora? Em outubro de 2015, a Ancine comemorou o retorno à marca de 3000 salas de cinema. Ou seja, digamos que temos agora 3500 salas de cinema no Brasil, Doutor Estranho angariou 35% das salas existentes na sua estréia. E não é um caso isolado. Capitão América: Guerra Civil levou 1400 salas, 40% do total. Num país que produziu 186 longas em 2014, onde apenas 41 deles tiveram lançamento comercial, um único filme agarrar mais de um terço das salas é algo para além de injusto. São 145 filmes que quase ninguém viu, simplesmente, porque não há espaço. E a produção brasileira só tem aumentado. Mas o gargalo, oh…

E bem, se você acha ainda que tá ok esses números, por mais assustadores que sejam, pense que o número de pessoas que trabalha com cinema só tem aumentado nos últimos anos, mas a falta de parque exibidor para essas produções tem fechado uma parcela considerável de editais de fomento ao audiovisual, com a justificativa de que ninguém vê esses filmes. Porém, ninguém os vê, porque não há salas disponíveis para exibi-los, ou porque, você coleguinha que me lê até aqui, prefere ver um longa uniformizado e construído com o intuito de vender bonequinhos (que eu não vou tocar nesse assunto, mas convido a você pesquisar a renda que a Marvel ganha com produtos relacionados às suas produções), e que sequestra mais de um terço das salas de cinema do seu país, deixando que gente como eu fique sem emprego porque não tem onde exibir os filmes, ao invés de ver algum filme brasileiro, que foi feito com todo amor e carinho (eu não tô falando das Globochanchadas, hein?!), as vezes não percebe que a escolha do espectador é um ato político. Se o filme brasileiro não chega na sua região, exija que chegue. Faça pressão, chame os amigos, lute com a gente!